terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Itinerário Quaresmal - I Semana

Caros Amigos!
Iniciamos mais uma caminhada quaresmal. Este tempo litúrgico que nos prepara para a Páscoa faz-nos diversos convites. Convida-nos à oração e ao silêncio interior. À comunhão com o outro – destinatário da nossa partilha e renúncia. Convida-nos a centrar a nossa vida em Deus no meio dos desertos pessoais e dos desafios do quotidiano. Tais convites serão os apelos que a cada semana brotarão da Palavra de Deus.
Para que a tua/nossa quaresma seja carregada de fecundidade e proporcione mais vida interior, propomos-te este itinerário. A cada semana encontrarás um pequeno roteiro que poderás aproveitar para o teu percurso pessoal ou comunitário.
A Palavra dominical far-se-á convite dentro de ti. Escuta os seus apelos. Deixa que ecoe dentro do teu coração e transforme o teu caminhar. Partilha com alguém este itinerário. Faz dele caminho de encontro com a tua família, o teu grupo de amigos, ou o grupo de jovens (ou outro) de que fazes parte.
Votos de uma quaresma onde o silêncio interior te ajude a centrar a tua vida em Deus.

Primeira Semana: Chamados ao deserto

Leituras do 1º Domingo da Quaresma: Dt 26, 4-10; Rm 10, 8-13; Lc 4, 1-13
1. O povo de Deus foi chamado ao deserto. Na aridez do caminhar foi moldando o seu coração. Purificando as suas infidelidades. Deixando-se conduzir pela mão providente de Deus da Aliança. O deserto foi caminho e condição. Caminho para encontrar-se como povo e para chegar ao lugar da Promessa. Condição de caminhar entre desafios e o sonho de ver concretizada a alegria de chegar.
Jesus foi chamado ao deserto. O Espírito conduziu-o ao deserto do discernimento. O lugar onde se tomam as decisões e os confrontos revelam a solidez do acreditar. No coração do silêncio foi tentado. Tentado pelo próprio silêncio. A aridez do deserto quis transformar-se num mar de possibilidades. A secura e a fome prometeram a abundância e o sucesso. O projecto do Reino foi desafiado pela vastidão de um deserto encarcerado dentro de um coração procurando caminhos. E o deserto de Jesus tornou-se condição. E o projecto do Reino encheu de vida o seu e todos os desertos.

2. Escuta o Evangelho que a liturgia te propõe: Lc 4, 1-13.
Naquele tempo, Jesus, cheio do Espírito Santo, retirou-se das margens do rio Jordão. Durante quarenta dias, esteve no deserto, conduzido pelo Espírito, e foi tentado pelo Diabo. Nesses dias não comeu nada e, passado esse tempo, sentiu fome. O Diabo disse-lhe: “Se és Filho de Deus, manda a esta pedra que se transforme em pão”. Jesus respondeu-lhe: “Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem’”. O Diabo levou-o a um lugar alto e mostrou-lhe num instante todos os reinos da terra e disse-lhe: “Eu Te darei todo este poder e a glória destes reinos, porque me foram confiados e os dou a quem eu quiser. Se Te prostrares diante de mim tudo será Teu”. Jesus respondeu-lhe: “Está escrito: ‘Ao Senhor Teu Deus adorarás, só a Ele prestarás culto’”. Então o Diabo levou-O a Jerusalém, colocou-O sobre o pináculo do Templo e disse-lhe: “Se és Filho de Deus, atira-Te daqui para baixo, porque está escrito: ‘Ele dará ordens aos seus Anjos a teu respeito para que Te guardem’; e ainda: ‘Na palma das mãos te levarão para que não tropeces em alguma pedra’”. Jesus respondeu-lhe: “Está mandado: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’”. Então o Diabo, tendo terminado toda a espécie de tentação, retirou-se da presença de Jesus, até certo tempo.

Chamados ao Deserto

Também nós somos chamados ao deserto. A Quaresma apropria-se deste simbolismo para nos propor um caminho de encontro e de aceitação dos nossos desertos. No silêncio ou no confronto rotineiro dos dias o deserto descobre-nos. Somos descobertos pela necessidade de nos encontrarmos connosco próprios. O caminho de encontro com o mais íntimo de nós é singular. Nele se misturam afectos, desejos, temores, desafios, necessidades pessoais. E também o desejo, muitas vezes camuflado de, na busca de se encontrar, encontrar o próprio centro e nele, o Absoluto que nos habita.
A Quaresma confere um rumo ao nosso deserto. Sem um rumo, o deserto é maldição. É travessia sem fim. Aridez a perder de vista. A Quaresma abre-nos os olhos para acolher o deserto que somos e que atravessamos. Atira-nos palavras de sentido para confundir as certezas da nossa travessia. Desmascara a omnipotência de querermos caminhar sem ninguém que nos acompanhe.
Chamados ao deserto e ao silêncio. Para sermos tentados. Como Jesus, somos tentados pelo silêncio e pelo deserto. Tentados pela ganância de tudo possuir. De nada partilhar. Tentados pelo isolamento de não se entregar. Tentados pelo sucesso que mina os nossos relacionamentos e empurra para o vazio do ser. Tentados pelo desejo de afirmarmos um sentido para tudo, onde Deus não tenha lugar.
Procura nesta primeira semana de Quaresma descobrir, acolher o deserto que há em ti. No silêncio ou na azáfama do quotidiano, arrisca no deixar-se encontrar. Deixa-te possuir pelo Amor que faz nascer rios de água viva em todos os desertos.
- Que caminho pessoal e comunitário procurarei fazer ao longo desta Quaresma?

Não há flores no deserto onde tu moras
Nem a água salta por entre as pedras que pisas
Secaram as nascentes da tua vida
E o sem rumo faz-te companhia
Desde que deixaste de acreditar.

Não há flores no deserto onde tu moras
Mas é presente o deserto dentro de ti
Espaço aberto para o viço e o novo
Onde todas as fontes serão torrente

Não há flores no deserto onde tu moras
Mas é convite o deserto dentro de ti
Caminho palmilhado na esperança de chegar
À terra que és e que será nova
Quando o milagre do grão de trigo irromper.

Não há flores no deserto onde tu moras
Mas o deserto é convite, caminho e presente
Dentro de ti.
Do vinho da alegria e da fé.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Mensagem de Bento XVI para a Quaresma 2010

A justiça de Deus está manifestada mediante a fé em Jesus Cristo (cfr Rom 3, 21–22)

Queridos irmãos e irmãs,

Todos os anos, por ocasião da Quaresma, a Igreja convida-nos a uma revisão sincera da nossa vida à luz dos ensinamentos evangélicos. Este ano desejaria propor-vos algumas reflexões sobre o tema vasto da justiça, partindo da afirmação Paulina: A justiça de Deus está manifestada mediante a fé em Jesus Cristo (cfr Rom 3,21–22).

Justiça: “dare cuique suum”

Detenho-me em primeiro lugar sobre o significado da palavra “justiça” que na linguagem comum implica “dar a cada um o que é seu – dare cuique suum”, segundo a conhecida expressão de Ulpiano, jurista romano do século III. Porém, na realidade, tal definição clássica não precisa em que é que consiste aquele “suo” que se deve assegurar a cada um. Aquilo de que o homem mais precisa não lhe pode ser garantido por lei. Para gozar de uma existência em plenitude, precisa de algo mais íntimo que lhe pode ser concedido somente gratuitamente: poderíamos dizer que o homem vive daquele amor que só Deus lhe pode comunicar, tendo-o criado à sua imagem e semelhança. São certamente úteis e necessários os bens materiais – no fim de contas o próprio Jesus se preocupou com a cura dos doentes, em matar a fome das multidões que o seguiam e certamente condena a indiferença que também hoje condena à morte centenas de milhões de seres humanos por falta de alimentos, de água e de medicamentos -, mas a justiça distributiva não restitui ao ser humano todo o “suo” que lhe é devido. Mais do que o pão ele de facto precisa de Deus. Nota Santo Agostinho: se “a justiça é a virtude que distribui a cada um o que é seu… não é justiça do homem aquela que subtrai o homem ao verdadeiro Deus” (De civitate Dei, XIX, 21).

De onde vem a injustiça?

O evangelista Marcos refere as seguintes palavras de Jesus, que se inserem no debate de então acerca do que é puro e impuro: “Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa tornar impuro. Mas o que sai do homem, isso é que o torna impuro. Porque é do interior do coração dos homens, que saem os maus pensamentos” (Mc 7,14-15.20-21). Para além da questão imediata relativa ao alimento, podemos entrever nas reacções dos fariseus uma tentação permanente do homem: individuar a origem do mal numa causa exterior. Muitas das ideologias modernas, a bem ver, têm este pressuposto: visto que a injustiça vem “de fora”, para que reine a justiça é suficiente remover as causas externas que impedem a sua actuação: Esta maneira de pensar - admoesta Jesus – é ingénua e míope. A injustiça, fruto do mal, não tem raízes exclusivamente externas; tem origem no coração do homem, onde se encontram os germes de uma misteriosa conivência com o mal. Reconhece-o com amargura o Salmista: “Eis que eu nasci na culpa, e a minha mãe concebeu-se no pecado” (Sl 51,7). Sim, o homem torna-se frágil por um impulso profundo, que o mortifica na capacidade de entrar em comunhão com o outro. Aberto por natureza ao fluxo livre da partilha, adverte dentro de si uma força de gravidade estranha que o leva a dobrar-se sobre si mesmo, a afirmar-se acima e contra os outros: é o egoísmo, consequência do pecado original. Adão e Eva, seduzidos pela mentira de Satanás, colhendo o fruto misterioso contra a vontade divina, substituíram à lógica de confiar no Amor aquela da suspeita e da competição; à lógica do receber, da espera confiante do Outro, aquela ansiosa do agarrar, do fazer sozinho (cfr Gn 3,1-6) experimentando como resultado uma sensação de inquietação e de incerteza. Como pode o homem libertar-se deste impulso egoísta e abrir-se ao amor?

Justiça e Sedaqah

No coração da sabedoria de Israel encontramos um laço profundo entre fé em Deus que “levanta do pó o indigente (Sl 113,7) e justiça em relação ao próximo. A própria palavra com a qual em hebraico se indica a virtude da justiça, sedaqah, exprime-o bem. De facto sedaqah significa, de um lado a aceitação plena da vontade do Deus de Israel; do outro, equidade em relação ao próximo (cfr Ex 29,12-17), de maneira especial ao pobre, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva (cfr Dt 10,18-19). Mas os dois significados estão ligados, porque o dar ao pobre, para o israelita nada mais é senão a retribuição que se deve a Deus, que teve piedade da miséria do seu povo. Não é por acaso que o dom das tábuas da Lei a Moisés, no monte Sinai, se verifica depois da passagem do Mar Vermelho. Isto é, a escuta da Lei, pressupõe a fé no Deus que foi o primeiro a ouvir o lamento do seu povo e desceu para o libertar do poder do Egipto (cfr Ex s,8). Deus está atento ao grito do pobre e em resposta pede para ser ouvido: pede justiça para o pobre (cfr Ecli 4,4-5.8-9), o estrangeiro (cfr Ex 22,20), o escravo (cfr Dt 15,12-18). Para entrar na justiça é portanto necessário sair daquela ilusão de auto-suficiência, daquele estado profundo de fecho, que é a própria origem da injustiça. Por outras palavras, é necessário um “êxodo” mais profundo do que aquele que Deus efectuou com Moisés, uma libertação do coração, que a palavra da Lei, sozinha, é impotente para a realizar. Existe portanto para o homem esperança de justiça?

Cristo, justiça de Deus

O anúncio cristão responde positivamente à sede de justiça do homem, como afirma o apóstolo Paulo na Carta aos Romanos: “ Mas agora, é sem a lei que está manifestada a justiça de Deus… mediante a fé em Jesus Cristo, para todos os crentes. De facto não há distinção, porque todos pecaram e estão privados da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente pela Sua graça, por meio da redenção que se realiza em Jesus Cristo, que Deus apresentou como vítima de propiciação pelo Seu próprio sangue, mediante a fé” (3,21-25)

Qual é portanto a justiça de Cristo? É antes de mais a justiça que vem da graça, onde não é o homem que repara, que cura si mesmo e os outros. O facto de que a “expiação” se verifique no “sangue” de Jesus significa que não são os sacrifícios do homem a libertá-lo do peso das suas culpas, mas o gesto do amor de Deus que se abre até ao extremo, até fazer passar em si “ a maldição” que toca ao homem, para lhe transmitir em troca a “bênção” que toca a Deus (cfr Gal 3,13-14). Mas isto levanta imediatamente uma objecção: que justiça existe lá, onde o justo morre pelo culpado e o culpado recebe em troca a bênção que toca ao justo? Desta maneira, cada um não recebe o contrário do que é “seu”? Na realidade, aqui manifesta-se a justiça divina, profundamente diferente da justiça humana. Deus pagou por nós no seu Filho o preço do resgate, um preço verdadeiramente exorbitante. Perante a justiça da Cruz o homem pode revoltar-se, porque ele põe em evidência que o homem não é um ser autárquico, mas precisa de um Outro para ser plenamente si mesmo. Converter-se a Cristo, acreditar no Evangelho, no fundo significa precisamente isto: sair da ilusão da auto-suficiência para descobrir e aceitar a própria indigência – indigência dos outros e de Deus, exigência do seu perdão e da sua amizade.

Compreende-se então como a fé não é um facto natural, cómodo, óbvio: é necessário humildade para aceitar que se precisa que um Outro me liberte do “meu”, para me dar gratuitamente o “seu”. Isto acontece particularmente nos sacramentos da Penitência e da Eucaristia. Graças à acção de Cristo, nós podemos entrar na justiça “ maior”, que é a do amor (cfr Rom 13,8-10), a justiça de quem se sente em todo o caso sempre mais devedor do que credor, porque recebeu mais do que aquilo que poderia esperar.

Precisamente fortalecido por esta experiência, o cristão é levado a contribuir para a formação de sociedades justas, onde todos recebem o necessário para viver segundo a própria dignidade de homem e onde a justiça é vivificada pelo amor.

Queridos irmãos e irmãs, a Quaresma culmina no Tríduo Pascal, no qual também este ano celebraremos a justiça divina, que é plenitude de caridade, de dom, de salvação. Que este tempo penitencial seja para cada cristão tempo de autêntica conversão e de conhecimento intenso do mistério de Cristo, que veio para realizar a justiça. Com estes sentimentos, a todos concedo de coração, a Bênção Apostólica.

Vaticano, 30 de Outubro de 2009

BENEDICTUS PP. XVI

Quaresma


A Igreja Católica começa a viver esta Quarta-feira o tempo da Quaresma, uma etapa do percurso litúrgico que ao longo de 40 dias propõe uma mudança em profundidade, como forma de preparar a festa maior do Cristianismo, a Páscoa.
A mensagem de Bento XVI para a Quaresma de 2010 convida os cristãos de todo o mundo a “contribuir para a formação de sociedades justas, onde todos recebem o necessário para viver segundo a própria dignidade de homem”. O texto apresenta uma reflexão sobre os conceitos de justiça e injustiça, assinalando que “aquilo de que o homem mais precisa não lhe pode ser garantido por lei”.
A Quaresma é, no Ano Litúrgico, o tempo preparatório da Páscoa, a grande celebração do mistério da Salvação pela morte e ressurreição de Jesus Cristo. Na actual disciplina litúrgica, vai da Quarta-Feira de Cinzas até Quinta-Feira Santa, excluindo a Missa da Ceia do Senhor, que já pertence ao Tríduo Pascal.
Inicialmente durava 3 semanas, mas depois, em Roma, foi alargada a 6 semanas (40 dias), com início no actual I Domingo da Quaresma (na altura denominado Quadragesima die, entenda-se 40.º dia anterior à Páscoa).
O termo Quadragesima (a nossa "Quaresma") passou depois a designar a duração dos 40 dias evocativos do jejum de Jesus no deserto a preparar-se para a vida pública. Como, tradicionalmente, aos Domingos nunca se jejuou, foi necessário acrescentar alguns dias para se perfazerem os 40. Daí a antecipação do início da Quaresma para a Quarta-Feira de Cinzas.
A cinza recorda o que fica da queima ou da corrupção das coisas e das pessoas. Este rito é um dos mais representativos dos sinais e gestos simbólicos do caminho quaresmal.
Nos primeiros tempos da Igreja, durante esse período, estavam na fase final da sua preparação os catecúmenos que, durante a vigília pascal, haveriam de receber o Baptismo. Por volta do século IV, o período quaresmal caracterizava-se como tempo de penitência e renovação interior para toda a Igreja. Tradicionalmente, a Igreja recomenda as práticas da oração, o jejum e a esmola. Na Liturgia, este tempo é marcado por paramentos e vestes roxas, pela omissão do "Glória" e do "Aleluia" na celebração da Missa.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Shalom...43 anos de existência


Anos 60… Em Portugal governava Salazar e, com ele, a ditadura de um regime que não permitia “ajuntamentos”… Em Angola, uma colónia portuguesa, a ditadura também se fazia sentir. Nesse país em guerra os jovens procuravam algo novo… Luís Carlos sentiu isso… Oriundo dos Açores, em Angola trabalhava, estudava, fazia rádio e teatro. Mas, só aos 22 anos se decide pela vida sacerdotal,entrando no seminário, acolhendo com generosidade o chamamento de Cristo.
O Vaticano II imprime à Igreja a aventura de rejuvenescer o seu rosto… e como resposta ao apelo do Concílio e indo ao encontro dos anseios dos jovens que pediam à Igreja um espaço onde pudessem ser cristãos sem deixarem de ser jovens, surge o Movimento.
Tudo começou com uns encontros orientados pelo Luís Carlos. Daí os seus membros se chamarem “Encontristas”. Mas não foi fácil: alguns pais acompanhavam os filhos aos encontros, com medo do que lhes era ensinado… Estas reuniões de jovens não tardaram a ser interpretadas de outra forma e a PIDE mantinha tudo debaixo de olho…
Iam caminhando, conforme lhes era permitido e, em Fevereiro de 1967, no Huambo (Nova Lisboa), Angola, é realizado o primeiro Encontro Inicial. Com este fim-de-semana em conjunto, sempre descobrindo o Cristo Jovem, surgem novas ideias a serem postas em prática. Ideias polémicas, inéditas mas interpeladoras. Ideias que deram nas vistas e que chamaram a atenção sobre os encontros de jovens que se saudavam com a palavra Shalom…
A missa yé-yé, cantada em ritmos hippies e explicada passo a passo, foi uma dessas ideias, que mereceu o melhor e o pior da imprensa da altura e que abanou mentalidades. Outra actividade foi o Grande Encontro, um encontro de uma semana, com o tema “Justiça e Paz para o Terceiro Mundo”, em Benguela, 1973. Uma iniciativa em pleno período de contestação à guerra colonial e que suscitou as maiores suspeitas da polícia política. Muitas mais actividades foram realizadas, outras impedidas de realizar mas… a “Evangelização dos jovens pelos jovens” começa a fazer sentido…

O Movimento Encontros de Jovens Shalom celebra hoje 43 anos de existência.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

2.º Encontro de Equipas Coordenadoras - Balanço

Durante os dias 30 e 31 de Janeiro as equipas coordenadoras dos dois secretariados paroquiais da diocese de Portalegre-Castelo Branco reuniram para avaliar e programar o próximo semestre de trabalho.

Calendário do 2.º semestre:

5, 6 e 7 Fevereiro - Encontro Inicial (Nossa Senhora de Fátima)
7 Fevereiro - Missa Jovem (Nossa Senhora de Fátima)
27 e 28 Fevereiro - Encontro de Crismandos da Sé (Alcaíns)
27 e 28 Fevereiro - 2.ª CID (S. Julião da Barra, Lisboa)

6 Março - Missa Jovem (Sé)
20 e 21 Março - Encontro de Crismandos de Nossa Senhora de Fátima (Gardunha)

10 Abril - Missa Jovem (Nossa Senhora de Fátima)

1 Maio - Missa Jovem (Sé)
8 e 9 Maio - Encontro de Oração
22 e 23 Maio - Convívio Nacional (Braga)
22 Maio - Animação da Eucaristia de Crisma (Sé)
23 Maio - Animação da Eucaristia de Crisma (Sé)

5 Junho - Missa Jovem (Nossa Senhora de Fátima)
5 e 6 Junho - 3.ª CID (Portela, Coimbra)
12 Junho - 3.º Encontro de Equipas Coordenadoras
13 Junho - Convívio Diocesano

3 Julho - Missa Jovem (Nossa Senhora de Fátima)

1 a 7 Agosto - Férias Shalom

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Mensagem de Sua Santidade Bento XVI para a Celebração do Dia Mundial da Paz


LIBERDADE RELIGIOSA, CAMINHO PARA A PAZ


1. NO INÍCIO DE UM ANO NOVO, desejo fazer chegar a todos e cada um os meus votos: votos de serenidade e prosperidade, mas sobretudo votos de paz. Infelizmente também o ano que encerra as portas esteve marcado pela perseguição, pela discriminação, por terríveis actos de violência e de intolerância religiosa.

Penso, em particular, na amada terra do Iraque, que, no seu caminho para a desejada estabilidade e reconciliação, continua a ser cenário de violências e atentados. Recordo as recentes tribulações da comunidade cristã, e de modo especial o vil ataque contra a catedral siro-católica de «Nossa Senhora do Perpétuo Socorro» em Bagdad, onde, no passado dia 31 de Outubro, foram assassinados dois sacerdotes e mais de cinquenta fiéis, quando se encontravam reunidos para a celebração da Santa Missa. A este ataque seguiram-se outros nos dias sucessivos, inclusive contra casas privadas, gerando medo na comunidade cristã e o desejo, por parte de muitos dos seus membros, de emigrar à procura de melhores condições de vida. Manifesto-lhes a minha solidariedade e a da Igreja inteira, sentimento que ainda recentemente teve uma concreta expressão na Assembleia Especial para o Médio Oriente do Sínodo dos Bispos, a qual encorajou as comunidades católicas no Iraque e em todo o Médio Oriente a viverem a comunhão e continuarem a oferecer um decidido testemunho de fé naquelas terras.

Agradeço vivamente aos governos que se esforçam por aliviar os sofrimentos destes irmãos em humanidade e convido os católicos a orarem pelos seus irmãos na fé que padecem violências e intolerâncias e a serem solidários com eles. Neste contexto, achei particularmente oportuno partilhar com todos vós algumas reflexões sobre a liberdade religiosa, caminho para a paz. De facto, é doloroso constatar que, em algumas regiões do mundo, não é possível professar e exprimir livremente a própria religião sem pôr em risco a vida e a liberdade pessoal. Noutras regiões, há formas mais silenciosas e sofisticadas de preconceito e oposição contra os crentes e os símbolos religiosos. Os cristãos são, actualmente, o grupo religioso que padece o maior número de perseguições devido à própria fé. Muitos suportam diariamente ofensas e vivem frequentemente em sobressalto por causa da sua procura da verdade, da sua fé em Jesus Cristo e do seu apelo sincero para que seja reconhecida a liberdade religiosa. Não se pode aceitar nada disto, porque constitui uma ofensa a Deus e à dignidade humana; além disso, é uma ameaça à segurança e à paz e impede a realização de um desenvolvimento humano autêntico e integral.[1]

De facto, na liberdade religiosa exprime-se a especificidade da pessoa humana, que, por ela, pode orientar a própria vida pessoal e social para Deus, a cuja luz se compreendem plenamente a identidade, o sentido e o fim da pessoa. Negar ou limitar arbitrariamente esta liberdade significa cultivar uma visão redutiva da pessoa humana; obscurecer a função pública da religião significa gerar uma sociedade injusta, porque esta seria desproporcionada à verdadeira natureza da pessoa; isto significa tornar impossível a afirmação de uma paz autêntica e duradoura para toda a família humana.

Por isso, exorto os homens e mulheres de boa vontade a renovarem o seu compromisso pela construção de um mundo onde todos sejam livres para professar a sua própria religião ou a sua fé e viver o seu amor a Deus com todo o coração, toda a alma e toda a mente (cf. Mt 22, 37). Este é o sentimento que inspira e guia a Mensagem para o XLIV Dia Mundial da Paz, dedicada ao tema: Liberdade religiosa, caminho para a paz.

Direito sagrado à vida e a uma vida espiritual

2. O direito à liberdade religiosa está radicado na própria dignidade da pessoa humana,[2] cuja natureza transcendente não deve ser ignorada ou negligenciada. Deus criou o homem e a mulher à sua imagem e semelhança (cf. Gn 1, 27). Por isso, toda a pessoa é titular do direito sagrado a uma vida íntegra, mesmo do ponto de vista espiritual. Sem o reconhecimento do próprio ser espiritual, sem a abertura ao transcendente, a pessoa humana retrai-se sobre si mesma, não consegue encontrar resposta para as perguntas do seu coração sobre o sentido da vida e dotar-se de valores e princípios éticos duradouros, nem consegue sequer experimentar uma liberdade autêntica e desenvolver uma sociedade justa.[3]

A Sagrada Escritura, em sintonia com a nossa própria experiência, revela o valor profundo da dignidade humana: «Quando contemplo os céus, obra das vossas mãos, a lua e as estrelas que lá colocastes, que é o homem para que Vos lembreis dele, o filho do homem para dele Vos ocupardes? Fizestes dele quase um ser divino, de honra e glória o coroastes; destes-lhe poder sobre a obra das vossas mãos, tudo submetestes a seus pés» (Sl 8, 4-7).

Perante a sublime realidade da natureza humana, podemos experimentar a mesma admiração expressa pelo salmista. Esta manifesta-se como abertura ao Mistério, como capacidade de interrogar-se profundamente sobre si mesmo e sobre a origem do universo, como íntima ressonância do Amor supremo de Deus, princípio e fim de todas as coisas, de cada pessoa e dos povos.[4] A dignidade transcendente da pessoa é um valor essencial da sabedoria judaico-cristã, mas, graças à razão, pode ser reconhecida por todos. Esta dignidade, entendida como capacidade de transcender a própria materialidade e buscar a verdade, há-de ser reconhecida como um bem universal, indispensável na construção duma sociedade orientada para a realização e a plenitude do homem. O respeito de elementos essenciais da dignidade do homem, tais como o direito à vida e o direito à liberdade religiosa, é uma condição da legitimidade moral de toda a norma social e jurídica.

Liberdade religiosa e respeito recíproco

3. A liberdade religiosa está na origem da liberdade moral. Com efeito, a abertura à verdade e ao bem, a abertura a Deus, radicada na natureza humana, confere plena dignidade a cada um dos seres humanos e é garante do respeito pleno e recíproco entre as pessoas. Por conseguinte, a liberdade religiosa deve ser entendida não só como imunidade da coacção mas também, e antes ainda, como capacidade de organizar as próprias opções segundo a verdade.

Existe uma ligação indivisível entre liberdade e respeito; de facto, «cada homem e cada grupo social estão moralmente obrigados, no exercício dos próprios direitos, a ter em conta os direitos alheios e os seus próprios deveres para com os outros e o bem comum».[5]

Uma liberdade hostil ou indiferente a Deus acaba por se negar a si mesma e não garante o pleno respeito do outro. Uma vontade, que se crê radicalmente incapaz de procurar a verdade e o bem, não tem outras razões objectivas nem outros motivos para agir senão os impostos pelos seus interesses momentâneos e contingentes, não tem uma «identidade» a preservar e construir através de opções verdadeiramente livres e conscientes. Mas assim não pode reclamar o respeito por parte de outras «vontades», também estas desligadas do próprio ser mais profundo e capazes, por conseguinte, de fazer valer outras «razões» ou mesmo nenhuma «razão». A ilusão de encontrar no relativismo moral a chave para uma pacífica convivência é, na realidade, a origem da divisão e da negação da dignidade dos seres humanos. Por isso se compreende a necessidade de reconhecer uma dupla dimensão na unidade da pessoa humana: a religiosa e a social. A este respeito, é inconcebível que os crentes «tenham de suprimir uma parte de si mesmos – a sua fé – para serem cidadãos activos; nunca deveria ser necessário renegar a Deus, para se poder gozar dos próprios direitos».[6]

A família, escola de liberdade e de paz

4. Se a liberdade religiosa é caminho para a paz, a educação religiosa é estrada privilegiada para habilitar as novas gerações a reconhecerem no outro o seu próprio irmão e a sua própria irmã, com quem caminhar juntos e colaborar para que todos se sintam membros vivos de uma mesma família humana, da qual ninguém deve ser excluído.

A família fundada sobre o matrimónio, expressão de união íntima e de complementaridade entre um homem e uma mulher, insere-se neste contexto como a primeira escola de formação e de crescimento social, cultural, moral e espiritual dos filhos, que deveriam encontrar sempre no pai e na mãe as primeiras testemunhas de uma vida orientada para a busca da verdade e para o amor de Deus. Os próprios pais deveriam ser sempre livres para transmitir, sem constrições e responsavelmente, o próprio património de fé, de valores e de cultura aos filhos. A família, primeira célula da sociedade humana, permanece o âmbito primário de formação para relações harmoniosas a todos os níveis de convivência humana, nacional e internacional. Esta é a estrada que se há-de sapientemente percorrer para a construção de um tecido social robusto e solidário, para preparar os jovens à assunção das próprias responsabilidades na vida, numa sociedade livre, num espírito de compreensão e de paz.

Um património comum

5. Poder-se-ia dizer que, entre os direitos e as liberdades fundamentais radicados na dignidade da pessoa, a liberdade religiosa goza de um estatuto especial. Quando se reconhece a liberdade religiosa, a dignidade da pessoa humana é respeitada na sua raiz e reforça-se a índole e as instituições dos povos. Pelo contrário, quando a liberdade religiosa é negada, quando se tenta impedir de professar a própria religião ou a própria fé e de viver de acordo com elas, ofende-se a dignidade humana e, simultaneamente, acabam ameaçadas a justiça e a paz, que se apoiam sobre a recta ordem social construída à luz da Suma Verdade e do Sumo Bem.

Neste sentido, a liberdade religiosa é também uma aquisição de civilização política e jurídica. Trata-se de um bem essencial: toda a pessoa deve poder exercer livremente o direito de professar e manifestar, individual ou comunitariamente, a própria religião ou a própria fé, tanto em público como privadamente, no ensino, nos costumes, nas publicações, no culto e na observância dos ritos. Não deveria encontrar obstáculos, se quisesse eventualmente aderir a outra religião ou não professar religião alguma. Neste âmbito, revela-se emblemático e é uma referência essencial para os Estados o ordenamento internacional, enquanto não consente alguma derrogação da liberdade religiosa, salvo a legítima exigência da justa ordem pública.[7] Deste modo, o ordenamento internacional reconhece aos direitos de natureza religiosa o mesmo status do direito à vida e à liberdade pessoal, comprovando a sua pertença ao núcleo essencial dos direitos do homem, àqueles direitos universais e naturais que a lei humana não pode jamais negar.

A liberdade religiosa não é património exclusivo dos crentes, mas da família inteira dos povos da terra. É elemento imprescindível de um Estado de direito; não pode ser negada, sem ao mesmo tempo minar todos os direitos e as liberdades fundamentais, pois é a sua síntese e ápice. É «o papel de tornassol para verificar o respeito de todos os outros direitos humanos».[8] Ao mesmo tempo que favorece o exercício das faculdades humanas mais específicas, cria as premissas necessárias para a realização de um desenvolvimento integral, que diz respeito unitariamente à totalidade da pessoa em cada uma das suas dimensões.[9]

A dimensão pública da religião

6. Embora movendo-se a partir da esfera pessoal, a liberdade religiosa – como qualquer outra liberdade – realiza-se na relação com os outros. Uma liberdade sem relação não é liberdade perfeita. Também a liberdade religiosa não se esgota na dimensão individual, mas realiza-se na própria comunidade e na sociedade, coerentemente com o ser relacional da pessoa e com a natureza pública da religião.

O relacionamento é uma componente decisiva da liberdade religiosa, que impele as comunidades dos crentes a praticarem a solidariedade em prol do bem comum. Cada pessoa permanece única e irrepetível e, ao mesmo tempo, completa-se e realiza-se plenamente nesta dimensão comunitária.

Inegável é a contribuição que as religiões prestam à sociedade. São numerosas as instituições caritativas e culturais que atestam o papel construtivo dos crentes na vida social. Ainda mais importante é a contribuição ética da religião no âmbito político. Tal contribuição não deveria ser marginalizada ou proibida, mas vista como válida ajuda para a promoção do bem comum. Nesta perspectiva, é preciso mencionar a dimensão religiosa da cultura, tecida através dos séculos graças às contribuições sociais e sobretudo éticas da religião. Tal dimensão não constitui de modo algum uma discriminação daqueles que não partilham a sua crença, mas antes reforça a coesão social, a integração e a solidariedade.

Liberdade religiosa, força de liberdade e de civilização:
os perigos da sua instrumentalização

7. A instrumentalização da liberdade religiosa para mascarar interesses ocultos, como por exemplo a subversão da ordem constituída, a apropriação de recursos ou a manutenção do poder por parte de um grupo, pode provocar danos enormes às sociedades. O fanatismo, o fundamentalismo, as práticas contrárias à dignidade humana não se podem jamais justificar, e menos ainda o podem ser se realizadas em nome da religião. A profissão de uma religião não pode ser instrumentalizada, nem imposta pela força. Por isso, é necessário que os Estados e as várias comunidades humanas nunca se esqueçam que a liberdade religiosa é condição para a busca da verdade e que a verdade não se impõe pela violência mas pela «força da própria verdade».[10] Neste sentido, a religião é uma força positiva e propulsora na construção da sociedade civil e política.

Como se pode negar a contribuição das grandes religiões do mundo para o desenvolvimento da civilização? A busca sincera de Deus levou a um respeito maior da dignidade do homem. As comunidades cristãs, com o seu património de valores e princípios, contribuíram imenso para a tomada de consciência das pessoas e dos povos a respeito da sua própria identidade e dignidade, bem como para a conquista de instituições democráticas e para a afirmação dos direitos do homem e seus correlativos deveres.

Também hoje, numa sociedade cada vez mais globalizada, os cristãos são chamados – não só através de um responsável empenhamento civil, económico e político, mas também com o testemunho da própria caridade e fé – a oferecer a sua preciosa contribuição para o árduo e exaltante compromisso em prol da justiça, do desenvolvimento humano integral e do recto ordenamento das realidades humanas. A exclusão da religião da vida pública subtrai a esta um espaço vital que abre para a transcendência. Sem esta experiência primária, revela-se uma tarefa árdua orientar as sociedades para princípios éticos universais e torna-se difícil estabelecer ordenamentos nacionais e internacionais nos quais os direitos e as liberdades fundamentais possam ser plenamente reconhecidos e realizados, como se propõem os objectivos – infelizmente ainda menosprezados ou contestados – da Declaração Universal dos direitos do homem de 1948.

Uma questão de justiça e de civilização:
o fundamentalismo e a hostilidade contra os crentes prejudicam
a laicidade positiva dos Estados

8. A mesma determinação, com que são condenadas todas as formas de fanatismo e de fundamentalismo religioso, deve animar também a oposição a todas as formas de hostilidade contra a religião, que limitam o papel público dos crentes na vida civil e política.

Não se pode esquecer que o fundamentalismo religioso e o laicismo são formas reverberadas e extremas de rejeição do legítimo pluralismo e do princípio de laicidade. De facto, ambas absolutizam uma visão redutiva e parcial da pessoa humana, favorecendo formas, no primeiro caso, de integralismo religioso e, no segundo, de racionalismo. A sociedade, que quer impor ou, ao contrário, negar a religião por meio da violência, é injusta para com a pessoa e para com Deus, mas também para consigo mesma. Deus chama a Si a humanidade através de um desígnio de amor, o qual, ao mesmo tempo que implica a pessoa inteira na sua dimensão natural e espiritual, exige que lhe corresponda em termos de liberdade e de responsabilidade, com todo o coração e com todo o próprio ser, individual e comunitário. Sendo assim, também a sociedade, enquanto expressão da pessoa e do conjunto das suas dimensões constitutivas, deve viver e organizar-se de modo a favorecer a sua abertura à transcendência. Por isso mesmo, as leis e as instituições duma sociedade não podem ser configuradas ignorando a dimensão religiosa dos cidadãos ou de modo que prescindam completamente da mesma; mas devem ser comensuradas – através da obra democrática de cidadãos conscientes da sua alta vocação – ao ser da pessoa, para o poderem favorecer na sua dimensão religiosa. Não sendo esta uma criação do Estado, não pode ser manipulada, antes deve contar com o seu reconhecimento e respeito.

O ordenamento jurídico a todos os níveis, nacional e internacional, quando consente ou tolera o fanatismo religioso ou anti-religioso, falta à sua própria missão, que consiste em tutelar e promover a justiça e o direito de cada um. Tais realidades não podem ser deixadas à mercê do arbítrio do legislador ou da maioria, porque, como já ensinava Cícero, a justiça consiste em algo mais do que um mero acto produtivo da lei e da sua aplicação. A justiça implica reconhecer a cada um a sua dignidade,[11] a qual, sem liberdade religiosa garantida e vivida na sua essência, fica mutilada e ofendida, exposta ao risco de cair sob o predomínio dos ídolos, de bens relativos transformados em absolutos. Tudo isto expõe a sociedade ao risco de totalitarismos políticos e ideológicos, que enfatizam o poder público, ao mesmo tempo que são mortificadas e coarctadas, como se lhe fizessem concorrência, as liberdades de consciência, de pensamento e de religião.

Diálogo entre instituições civis e religiosas

9. O património de princípios e valores expressos por uma religiosidade autêntica é uma riqueza para os povos e respectivas índoles: fala directamente à consciência e à razão dos homens e mulheres, lembra o imperativo da conversão moral, motiva para aperfeiçoar a prática das virtudes e aproximar-se amistosamente um do outro sob o signo da fraternidade, como membros da grande família humana.[12]

No respeito da laicidade positiva das instituições estatais, a dimensão pública da religião deve ser sempre reconhecida. Para isso, um diálogo sadio entre as instituições civis e as religiosas é fundamental para o desenvolvimento integral da pessoa humana e da harmonia da sociedade.

Viver no amor e na verdade

10. No mundo globalizado, caracterizado por sociedades sempre mais multiétnicas e pluriconfessionais, as grandes religiões podem constituir um factor importante de unidade e paz para a família humana. Com base nas suas próprias convicções religiosas e na busca racional do bem comum, os seus membros são chamados a viver responsavelmente o próprio compromisso num contexto de liberdade religiosa. Nas variadas culturas religiosas, enquanto há que rejeitar tudo aquilo que é contra a dignidade do homem e da mulher, é preciso, ao contrário, valer-se daquilo que resulta positivo para a convivência civil.

O espaço público, que a comunidade internacional torna disponível para as religiões e para a sua proposta de «vida boa», favorece o aparecimento de uma medida compartilhável de verdade e de bem e ainda de um consenso moral, que são fundamentais para uma convivência justa e pacífica. Os líderes das grandes religiões, pela sua função, influência e autoridade nas respectivas comunidades, são os primeiros a ser chamados ao respeito recíproco e ao diálogo.

Os cristãos, por sua vez, são solicitados pela sua própria fé em Deus, Pai do Senhor Jesus Cristo, a viver como irmãos que se encontram na Igreja e colaboram para a edificação de um mundo, onde as pessoas e os povos «não mais praticarão o mal nem a destruição (...), porque o conhecimento do Senhor encherá a terra, como as águas enchem o leito do mar» (Is 11, 9).

Diálogo como busca em comum

11. Para a Igreja, o diálogo entre os membros de diversas religiões constitui um instrumento importante para colaborar com todas as comunidades religiosas para o bem comum. A própria Igreja nada rejeita do que nessas religiões existe de verdadeiro e santo. «Olha com sincero respeito esses modos de agir e viver, esses preceitos e doutrinas que, embora se afastem em muitos pontos daqueles que ela própria segue e propõe, todavia reflectem não raramente um raio da verdade que ilumina todos os homens».[13]

A estrada indicada não é a do relativismo nem do sincretismo religioso. De facto, a Igreja «anuncia, e tem mesmo a obrigação de anunciar incessantemente Cristo, “caminho, verdade e vida” (Jo 14, 6), em quem os homens encontram a plenitude da vida religiosa e no qual Deus reconciliou consigo mesmo todas as coisas».[14] Todavia isto não exclui o diálogo e a busca comum da verdade em diversos âmbitos vitais, porque, como diz uma expressão usada frequentemente por São Tomás de Aquino, «toda a verdade, independentemente de quem a diga, provém do Espírito Santo».[15]

Em 2011, tem lugar o 25º aniversário da Jornada Mundial de Oração pela Paz, que o Venerável Papa João Paulo II convocou em Assis em 1986. Naquela ocasião, os líderes das grandes religiões do mundo deram testemunho da religião como sendo um factor de união e paz, e não de divisão e conflito. A recordação daquela experiência é motivo de esperança para um futuro onde todos os crentes se sintam e se tornem autenticamente obreiros de justiça e de paz.

Verdade moral na política e na diplomacia

12. A política e a diplomacia deveriam olhar para o património moral e espiritual oferecido pelas grandes religiões do mundo, para reconhecer e afirmar verdades, princípios e valores universais que não podem ser negados sem, com os mesmos, negar-se a dignidade da pessoa humana. Mas, em termos práticos, que significa promover a verdade moral no mundo da política e da diplomacia? Quer dizer agir de maneira responsável com base no conhecimento objectivo e integral dos factos; quer dizer desmantelar ideologias políticas que acabam por suplantar a verdade e a dignidade humana e pretendem promover pseudo-valores com o pretexto da paz, do desenvolvimento e dos direitos humanos; quer dizer favorecer um empenho constante de fundar a lei positiva sobre os princípios da lei natural.[16] Tudo isto é necessário e coerente com o respeito da dignidade e do valor da pessoa humana, sancionado pelos povos da terra na Carta da Organização das Nações Unidas de 1945, que apresenta valores e princípios morais universais de referência para as normas, as instituições, os sistemas de convivência a nível nacional e internacional.

Para além do ódio e do preconceito

13. Não obstante os ensinamentos da história e o compromisso dos Estados, das organizações internacionais a nível mundial e local, das organizações não governamentais e de todos os homens e mulheres de boa vontade que cada dia se empenham pela tutela dos direitos e das liberdades fundamentais, ainda hoje no mundo se registam perseguições, descriminações, actos de violência e de intolerância baseados na religião. De modo particular na Ásia e na África, as principais vítimas são os membros das minorias religiosas, a quem é impedido de professar livremente a própria religião ou mudar para outra, através da intimidação e da violação dos direitos, das liberdades fundamentais e dos bens essenciais, chegando até à privação da liberdade pessoal ou da própria vida.

Temos depois, como já disse, formas mais sofisticadas de hostilidade contra a religião, que nos países ocidentais se exprimem por vezes com a renegação da própria história e dos símbolos religiosos nos quais se reflectem a identidade e a cultura da maioria dos cidadãos. Frequentemente tais formas fomentam o ódio e o preconceito e não são coerentes com uma visão serena e equilibrada do pluralismo e da laicidade das instituições, sem contar que as novas gerações correm o risco de não entrar em contacto com o precioso património espiritual dos seus países.

A defesa da religião passa pela defesa dos direitos e liberdades das comunidades religiosas. Assim, os líderes das grandes religiões do mundo e os responsáveis das nações renovem o compromisso pela promoção e a tutela da liberdade religiosa, em particular pela defesa das minorias religiosas; estas não constituem uma ameaça contra a identidade da maioria, antes, pelo contrário, são uma oportunidade para o diálogo e o mútuo enriquecimento cultural. A sua defesa representa a maneira ideal para consolidar o espírito de benevolência, abertura e reciprocidade com que se há-de tutelar os direitos e as liberdades fundamentais em todas as áreas e regiões do mundo.

Liberdade religiosa no mundo

14. Dirijo-me, por fim, às comunidades cristãs que sofrem perseguições, discriminações, actos de violência e intolerância, particularmente na Ásia, na África, no Médio Oriente e de modo especial na Terra Santa, lugar escolhido e abençoado por Deus. Ao mesmo tempo que lhes renovo a expressão do meu afecto paterno e asseguro a minha oração, peço a todos os responsáveis que intervenham prontamente para pôr fim a toda a violência contra os cristãos que habitam naquelas regiões. Que os discípulos de Cristo não desanimem com as presentes adversidades, porque o testemunho do Evangelho é e será sempre sinal de contradição.

Meditemos no nosso coração as palavras do Senhor Jesus: «Felizes os que choram, porque hão-se ser consolados. (...) Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. (...) Felizes sereis quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentido, vos acusarem de toda a espécie de mal. Alegrai-vos e exultai, pois é grande nos Céus a vossa recompensa» (Mt 5, 4-12). Por isso, renovemos «o compromisso por nós assumido no sentido da indulgência e do perdão – que invocamos de Deus para nós, no “Pai-nosso” – por havermos posto, nós próprios, a condição e a medida da desejada misericórdia: “perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”(Mt 6, 12)».[17] A violência não se vence com a violência. O nosso grito de dor seja sempre acompanhado pela fé, pela esperança e pelo testemunho do amor de Deus. Faço votos também de que cessem no Ocidente, especialmente na Europa, a hostilidade e os preconceitos contra os cristãos pelo facto de estes pretenderem orientar a própria vida de modo coerente com os valores e os princípios expressos no Evangelho. Mais ainda, que a Europa saiba reconciliar-se com as próprias raízes cristãs, que são fundamentais para compreender o papel que teve, tem e pretende ter na história; saberá assim experimentar justiça, concórdia e paz, cultivando um diálogo sincero com todos os povos.

Liberdade religiosa, caminho para a paz

15. O mundo tem necessidade de Deus; tem necessidade de valores éticos e espirituais, universais e compartilhados, e a religião pode oferecer uma contribuição preciosa na sua busca, para a construção de uma ordem social justa e pacífica a nível nacional e internacional.

A paz é um dom de Deus e, ao mesmo tempo, um projecto a realizar, nunca totalmente cumprido. Uma sociedade reconciliada com Deus está mais perto da paz, que não é simples ausência de guerra, nem mero fruto do predomínio militar ou económico, e menos ainda de astúcias enganadoras ou de hábeis manipulações. Pelo contrário, a paz é o resultado de um processo de purificação e elevação cultural, moral e espiritual de cada pessoa e povo, no qual a dignidade humana é plenamente respeitada. Convido todos aqueles que desejam tornar-se obreiros de paz e sobretudo os jovens a prestarem ouvidos à própria voz interior, para encontrar em Deus a referência estável para a conquista de uma liberdade autêntica, a força inesgotável para orientar o mundo com um espírito novo, capaz de não repetir os erros do passado. Como ensina o Servo de Deus Papa Paulo VI, a cuja sabedoria e clarividência se deve a instituição do Dia Mundial da Paz, «é preciso, antes de mais nada, proporcionar à Paz outras armas, que não aquelas que se destinam a matar e a exterminar a humanidade. São necessárias sobretudo as armas morais, que dão força e prestígio ao direito internacional; aquela arma, em primeiro lugar, da observância dos pactos».[18] A liberdade religiosa é uma autêntica arma da paz, com uma missão histórica e profética. De facto, ela valoriza e faz frutificar as qualidades e potencialidades mais profundas da pessoa humana, capazes de mudar e tornar melhor o mundo; consente alimentar a esperança num futuro de justiça e de paz, mesmo diante das graves injustiças e das misérias materiais e morais. Que todos os homens e as sociedades aos diversos níveis e nos vários ângulos da terra possam brevemente experimentar a liberdade religiosa, caminho para a paz!

Vaticano, 8 de Dezembro de 2010.

BENEDICTUS PP XVI

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

2.º Encontro Inicial

Aproxima-se a passos largos o 2.º Encontro Inicial do Movimento Encontros de Jovens Shalom em Castelo Branco. Após uma caminhada, de aproximadamente, um ano e meio os jovens da paróquia de Nossa Senhora de Fátima vão assumir o seu compromisso como cristão comprometidos com a realidade, com a Igreja, e com a sua paróquia. Este encontro, que terá lugar nos dias 5, 6 e 7 de Fevereiro, marca a entrada "oficial" no Movimento Shalom. Serão três dias de descoberta e partilha.
A Eucaristia de encerramento terá lugar na Igreja de Nossa Senhora de Fátima no domingo, dia 7, pelas 18h.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

2.º Encontro de Equipas Coordenadoras

"Será também como um homem que, ao partir para fora, chamou os servos e confiou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual conforme a sua capacidade; e depois partiu."

(Mt26, 14-15)

Shalom amigos!

Encontramo-nos a meio do nosso ano pastoral e a nossa diocese continua em Movimento mas, neste momento é tempo de pararmos para reflectirmos e avaliarmos o nosso trabalho deste primeiro semestre. Os Secretariados Paroquiais, através das EPA’s assumem um papel fulcral na missão de ir ao encontro dos jovens nas diversas realidades. É tempo então de avaliar, olhar para tudo o que de bom e mau aconteceu neste primeiro semestre, e com base nessa avaliação delinearmos o semestre que se avizinha.

Nos dias 30 e 31 de Janeiro irá decorrer, na paróquia de Nossa Senhora de Fátima, em Castelo Branco, o 2º Encontro de Equipas Coordenadoras dos SP’s da Diocese de Portalegre-Castelo Branco, onde contamos com a presença de todos os elementos das equipas coordenadoras. O encontro terá início no sábado às 10h, sendo o almoço partilhado, e terminará pelas 22h. O encontro terminará domingo às 14h30 com Eucaristia. As refeições estarão a cargo de uma equipa de serviço havendo no final do encontro partilha de despesas.

A ordem de trabalhos será a seguinte:

- Avaliação do 1.º semestre (Tragam as avaliações dos vossos SP’s e EPA’s);

- Marcação de actividades para o 2º semestre (Vejam em SP qual a melhor data para realização do curso do 2.º semestre);

- Economia da Diocese;

Material necessário para o Encontro:

- Recibos de despesas efectuadas no S.P;

- Declaração Bolsa do Seminarista e Declaração de Contribuição à Comunidade Shalom;

- Calendarização de actividades do S.P e das EPA’s para o 2.º semestre;

- Calendário 2009/2010 entregue na 1.ª Reunião de Equipas Coordenadoras ;

- Livro de Cânticos, instrumentos musicais;

- Papel e caneta;

Agradecemos que confirmem a vossa presença até dia 23 de Janeiro (Sábado), junto de qualquer elemento da Equipa Coordenadora Diocesana.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Homilia do Dia Mundial da Paz

O Bispo diocesano, D. Antonino Dias, presidiu, em S. Miguel da Sé, Castelo Branco, à Celebração Eucarística do Dia Mundial da Paz

A Liturgia celebra, no primeiro dia do ano civil, a Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus. Com esta celebração, a Igreja pretende colocar o novo ano, com todas as preocupações e cuidados, problemas e interrogações que ele encerra, sob a protecção maternal de Maria e quer também lembrar a importância da missão que Ela desempenha na História da Salvação, como Mãe do Salvador. A Maternidade de Maria, conforme lemos na Constituição Dogmática Lumen Gentium, “perdura na economia da graça sem interrupção, desde o consentimento que fielmente deu na Anunciação e que manteve inabalável junto da cruz, até à consumação eterna de todos os eleitos. De facto, depois de elevada ao Céu, não abandonou esta missão salvadora, mas, com a sua multiforme intercessão, continua a alcançar-nos os dons da salvação eterna” (LG 62). É, sem dúvida, na Maternidade divina que se encontra o fundamento da especial relação de Maria com Cristo e da sua presença na economia da salvação. “Efectivamente, a Virgem Maria, que na Anunciação do Anjo recebeu o Verbo no coração e no seio, e deu ao mundo a Vida, é reconhecida e honrada como verdadeira Mãe de Deus Redentor. Remida dum modo mais sublime, em atenção aos méritos de Seu Filho, e unida a Ele por um vínculo estreito e indissolúvel, foi enriquecida com a excelsa missão e dignidade de Mãe de Deus Filho.” Saudámo-la como membro eminente e inteiramente singular da Igreja, seu tipo e exemplar perfeitíssimo na fé e na caridade. A Igreja católica, ensinada pelo Espírito Santo, consagra-lhe, como a mãe amantíssima, filial afecto de piedade (cf. LG 53).
E Maria não frustra as expectativas do homem contemporâneo. Pela sua condição de “discípula perfeita de Cristo” e de mulher que se realizou perfeitamente como pessoa, ela é uma fonte perene de fecundas inspirações de vida, e oferece aos homens a vitória da esperança sobre a angústia, da comunhão sobre a solidão, da paz sobre a perturbação, da alegria sobre o tédio e da vida sobre a morte” (MC 57).
Mais: Jean Guiton escreveu que “a explicação teológica de Maria será um factor de união da Igreja do século XXI” e que “não será possível realizar nenhuma unidade sem ela” porque ela “é a pedra angular, graças à qual se encontram reunidas todas as aspirações da humanidade”. É verdade que “o nosso Mediador é só um…Jesus Cristo: Mas a função maternal de Maria em relação aos homens de modo algum ofusca ou diminui esta única mediação de Cristo; antes manifesta a sua eficácia” (LG 60).
Caros fiéis
Estamos ainda a celebrar o nascimento de Jesus Cristo que foi anunciado pelos profetas como o Príncipe da Paz. “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz”. No entanto, esta paz que Cristo nos veio trazer e nos deu não existe no interior de muitas pessoas. Não existe no seio de muitas famílias nem no seio da sociedade. A Igreja, desde há quarenta e três anos a esta parte, preocupada com a falta de paz, celebra, no primeiro dia do ano, o Dia Mundial da Paz para nos dizer que só Cristo é a Paz e que n’Ele todos somos irmãos.
Assim, o Santo Padre Bento XVI escolheu para este Dia: Se quiseres cultivar a paz, preserva a criação. Colocando a criação como “o princípio e o fundamento de todas as obras de Deus” ele afirma que “a sua salvaguarda se torna hoje essencial para a convivência pacífica da humanidade”. Na verdade, se já são muitos os “perigos que ameaçam a paz e o autêntico desenvolvimento humano integral, devido à desumanidade do homem para com o seu semelhante … não são menos preocupantes os perigos que derivam do desleixo, se não mesmo do abuso, em relação à terra e aos bens naturais que Deus nos concedeu.” E acrescenta: embora “entre as causas da actual crise ecológica” esteja a “responsabilidade histórica dos países industrializados”, também os países menos desenvolvidos e emergentes devem assumir as suas “próprias responsabilidades” porque o “dever de adoptar gradualmente medidas e políticas ambientais eficazes pertence a todos”.
O Santo Padre alerta ainda para um conjunto de “problemáticas que derivam de fenómenos como as alterações climatéricas, a desertificação, a deterioração e a perda de produtividade de vastas áreas agrícolas, a poluição dos rios e dos lençóis de água, a perda da biodiversidade, o aumento de calamidades naturais, a desflorestação das áreas equatoriais e tropicais”. Isto provoca “o fenómeno crescente dos chamados «prófugos ambientais»” que por causa da degradação do ambiente onde vivem, se vêem obrigados a abandoná-lo com prejuízo do acesso aos recursos naturais e vendo-se na urgência de “enfrentar os perigos e as incógnitas de uma deslocação forçada”. Estas situações, refere, “têm um impacto profundo no exercício dos direitos humanos, como, por exemplo, o direito à vida, à alimentação, à saúde, ao desenvolvimento”.
Perante a necessidade de fomentar uma verdadeira consciência ecológica, já o Santo Padre João Paulo II falava da necessidade de salvaguardar as condições morais de uma autêntica ecologia humana, social e cultural, com respostas novas capazes de inventar novos relacionamentos com a natureza, novos estilos e cultura de vida.
“O ser humano, denuncia Bento XVI, deixou-se dominar pelo egoísmo (…). No relacionamento com a criação, comportou-se como explorador pretendendo exercer um domínio absoluto sobre ela (…). E quando o homem, em vez de desempenhar a sua função de colaborador de Deus, se coloca no lugar de Deus, acaba por provocar a rebelião da natureza”.
É evidente que toda esta problemática reclama que se tomem medidas urgentes. Como sabemos, a Cimeira de Copenhaga sobre o clima não permitiu que os governantes do mundo se entendessem sobre as verdadeiras medidas a tomar. No entanto, compete à “comunidade internacional e aos governos nacionais dar os justos sinais para contrastar de modo eficaz, no uso do ambiente, as modalidades que resultem danosas para o mesmo”. Torna-se, pois, necessário agir: por um lado, “no respeito de normas bem definidas mesmo do ponto de vista jurídico e económico e, por outro, tendo em conta a solidariedade devida a quantos habitam nas regiões mais pobres da terra e às gerações futuras”.
Citando Paulo VI, Bento XVI acentua a necessidade de uma leal solidariedade entre as gerações. “Herdeiros das gerações passadas e beneficiários do trabalho dos nossos contemporâneos, temos obrigações para com todos, e não podemos desinteressar-nos dos que virão depois de nós aumentar o círculo da família humana. A solidariedade universal é para nós não só um facto e um benefício, mas também um dever”. Mas não basta. Para além duma leal solidariedade entre as gerações, a Mensagem Papal fala também da necessidade de “reafirmar a urgente necessidade moral de uma renovada solidariedade entre os indivíduos da mesma geração”. E faz votos para que se adopte “um modelo de desenvolvimento fundado na centralidade do ser humano, na promoção e partilha do bem comum, na responsabilidade, na consciência da necessidade de mudar os estilos de vida e na prudência, virtude que indica as acções que se devem realizar hoje na previsão do que poderá suceder amanhã”.
A «nova solidariedade» que João Paulo II propôs e a «solidariedade global» de que Bento XVI fala tornam presente a “forte relação que existe entre a luta contra a degradação ambiental e a promoção do desenvolvimento humano integral. Trata-se de uma dinâmica imprescindível, já que «o desenvolvimento integral do homem não pode realizar-se sem o desenvolvimento solidário da humanidade».
Em seguida, Bento XVI, refere-se às muitas “oportunidades científicas” e aos “potenciais percursos inovadores, mediante os quais é possível fornecer soluções satisfatórias e respeitadoras da relação entre o homem e o ambiente”, como sejam, “encorajar as pesquisas que visam identificar as modalidades mais eficazes para explorar a grande potencialidade da energia solar”; prestar igual atenção à questão “da água e ao sistema hidrogeológico global, cujo ciclo se reveste de primária importância para a vida na terra, mas está fortemente ameaçado na sua estabilidade pelas alterações climáticas. De igual modo se deve procurar apropriadas estratégias de desenvolvimento rural centradas nos pequenos cultivadores e nas suas famílias, sendo necessário também elaborar políticas idóneas para a gestão das florestas, o tratamento do lixo, a valorização das sinergias existentes no contraste às alterações climáticas e na luta contra a pobreza. (…) Enfim, é necessário sair da lógica de mero consumo para promover formas de produção agrícola e industrial que respeitem a ordem da criação e satisfaçam as necessidades primárias de todos”.
Em conclusão: o Papa defende que “proteger o ambiente natural para construir um mundo de paz é dever de toda a pessoa”; e que no combate à actual crise ecológica há “uma oportunidade providencial para entregar às novas gerações a perspectiva de um futuro melhor para todos”.
Fomentemos também nós a paz preservando a criação.
Amemos, respeitemos e contemplemos a natureza, verdadeiro livro aberto que nos fala do poder e da beleza de Deus e da grandeza do Seu amor por nós, homens e mulheres de todos os tempos.
Feliz Ano para todos!

+Antonino Dias
Bispo de Portalegre-Castelo Branco